terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Léo;

O cinema é tudo o que importa, Léo. Esses simples 24 quadros projetados num segundo são para mim tão vitais quanto o ar e o amor. Posso ficar sem comer durante dias mas não sem apreciar um belo Bertollucci ou um Godard. Assim como poderia ficar dias a fio analisando cada linha de teu corpo posso ficar analisando Marlon Brando e ser ninado por sua voz sussurrante em Poderoso Chefão. O cinema, Léo, é tudo o que importa. Seja linear ou de montagem. Erudito ou de vanguarda. Francês ou Hollywood. É só o que importa e é como tu, que como o cinema, me alimenta e é matéria de minhas frustrações e maiores questões existencialistas já formuladas por mim. Assim como um teórico de cinema deve analisar um filme a partir da matéria prima, do método, da forma, objetivo e valor é assim que eu te analiso, Léo. Tua essência, tua matéria prima. Tuas formas. Meu objetivo contigo e o teu comigo e o valor dessa relação. O cinema e o amor sempre andaram lado a lado pra mim, meu bem, e apesar da experiência do cinema (amor) não ser racional, é impossível para mim deixar de analisá-la de forma lógica. Alguns críticos dirão que essa análise lógica elimina parte do prazer da experiência de ser atingido no peito (como um tiro ou uma flecha de cupido) por um filme, mas isso é um equívoco, Léo. Eu tenciono para a máxima socrática de que a vida irrefletida não vale a pena ser vivida e meu prazer provém da compreensão das coisas. Da mente do artista, do processo fílmico e do amor. É para isso que eu vim ao mundo, Léo. Deus acendeu essa lâmpada em meu coração, essa certeza de que eu vim para o mundo para amar e deixar registrado em 24 quadros com segundo, a cores e com som, por toda a eternidade. Criar é uma forma de se manter eterno, meu amor, e o filme é uma forma de sentir de novo aquilo e preencher esse vazio deixado aqui em meu peito por ti. O filme não me abandona meu, amor. Jeanne Moreau sempre estará lá. Jean-Pierre Leáud sempre estará lá. Aonde tu não alcança, o cinema não abandona, meu amor. Marlon Brando sempre estará ao alcance de um play enquanto tu, embora eu a ame e a respeite, mal conseguiu despertar metade do interesse que o corpo de Eva Green desperta em mim.

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